Conversas ao espelho



















Não é fácil começar a gostar de nós tal como somos porque o que sobressai de imediato é aquilo a que chamamos "os nossos defeitos". Esse é o primeiro obstáculo a derrubar. Perceber o que nos impede de dar o salto. Que maravilha observar um bebé a olhar as mãozitas ou tentar agarrar os pés. A descobrir-se. Ele ama-se tal qual é. À medida que vai crescendo, críticas, medos, culpas, entre muitos outros, ficam gravados na sua mente de tanto os ouvir. Nós somos essa criança. Mas que importa o passado? O momento é agora. É agora que temos que conhecer o que no impede de continuar e acreditar nas capacidades guardadas no nosso eu profundo, para nos libertarmos. As mesmas que tínhamos ao nascer, quando éramos bebés.
Olhe-se ao espelho. Olhe-se bem nos olhos. Com determinação. Pergunte o que precisa fazer para conseguir aquilo que quer. Se não fizer a pergunta não ouvirá a resposta. Sente-se assustado? Tem vontade de gritar, de rir, de chorar, de fugir, de partir o espelho? Faça o que a vontade lhe segreda.
É importante ter com regularidade estas conversas ao espelho. De início vai ser difícil. Vai talvez achar que é um disparate, querer desistir, negar o que sente. À medida que se vai conhecendo será capaz de dizer cada vez com maior segurança: "Eu gosto de mim tal como sou."
Achei curioso transcrever um trecho do livro "As Bruxas da Serra da Fóia" onde uma menina de três anos, vendo-se ao espelho, se pergunta: "Quem sou eu?"

O espelho do corredor
Naquela família, parece que eram todos bonitos, menos eu. Pelo menos era o que me dizia a minha mãe:
− És feia e má. Eu não te queria e tu nasceste.
Eu não sabia o que era ser feia porque não conhecia a minha cara. Não sabia como é que se podia ver a nossa própria cara.
Havia no corredor um móvel que me intrigava porque a minha mãe olhava muito para ele. Numa ocasião em que fiquei sozinha em casa, resolvi investigar o que era aquela coisa que havia na parte de cima do bengaleiro, que brilhava tanto. Parecia um quadro com uma moldura, mas eu suspeitava
que fosse aquilo a que na história da «Branca de Neve» chamavam de espelho mágico. Estava alto e eu não chegava lá.
Puxei uma cadeira e subi. Vi uma menina do outro lado e perguntei-lhe como é que ela se chamava. Não me respondeu. Seria mesmo um espelho mágico e a menina não tinha gostado que eu a descobrisse? Pus o meu dedo no vidro e do outro lado apareceu um dedo. Coloquei-me de lado e apareceu uma menina na mesma posição. Desci da cadeira e voltei a subir para ver se a outra menina se tinha ido embora, mas ela estava lá. E eu perguntei:
− Quem és tu? Porque é que não falas comigo? Não queres ser minha amiga?
Na atrapalhação da subida para a cadeira tinha deixado a minha Mona em cima do móvel. Agarrei-a e mostrei-a à outra menina. Espantada, vi que a outra tinha uma Mona igual à minha e então descobri! Era mágico. Desci da cadeira e sentei-me num cantinho, agarrada à minha Mona, a pensar nas histórias, nas magias, e porque é que aquele espelho mágico estaria ali, se aquela casa não era um palácio e aquele canto era um corredor.
Lembrei-me então que a minha mãe costumava parar ali naquele sítio, arranjar os cabelos e pôr batom, quando ia sair. Então percebi que aquela outra menina era eu.
− Mas... quem sou eu? − interrogou de novo o meu pensamento − Quem sou eu? Donde é que vim? Porque é que nasci se a minha mãe não me queria?
Se aquela menina sou eu, então não sou assim tão feia como a minha mãe diz. Tenho os cabelos louros todos encaracolados. Os meus olhos são verdes e as pestanas grandes. A minha pele é branquinha e tenho rosetas vermelhas nas faces. Visto uma saia encarnada e uma camisola azul. A minha mãe pôs-me um laço encarnado na cabeça para segurar o cabelo que já está grande e cai para os olhos.
− Mona, tu achas que eu sou feia?
Nessa altura, eu tinha três anos e até agora ainda não consegui perceber quem sou e o que é que vim fazer ao mundo. Será que algum dia vou entender?
Sei que sou uma menina, tenho quase nove anos, estou aqui interna no colégio porque ninguém tem tempo para mim. Sei que a única pessoa que gostava de mim me fez muito mal. Sei que ando com as pernas, vejo com os olhos, ouço com os ouvidos. Há umas coisas que gosto mais de comer, do que outras. Há uns trabalhos que faço com agrado e outros que não gosto nada de fazer. Sinto frio e calor, tenho dores na barriga e na garganta, quando me constipo. Tudo isto é comum a todas as pessoas que conheço: às meninas do colégio e às bruxas, ao carteiro que vem cá todos os dias, ao homem que traz a lenha e até ao padre que diz a missa. Há algo, porém, que é diferente:
− O que eu sinto dentro de mim, quando ouço o rouxinol cantar ou a saudade que tenho da minha Mona, essas emoções são só minhas e fazem parte, julgo, desse outro eu que ainda não encontrei. (...)

3 comentários:

Célia Jordão Alves 14 de janeiro de 2009 às 15:19  

Obrigada Emília pelo seu blogue. Foi uma boa ideia. Tem muitas coisas importantes para dizer e ensinar e esta é uma boa forma de poder falar alto de modo a que muitos a ouçam.
Votos de sucesso.
Beijinhos

Liliana Anselmo 22 de janeiro de 2009 às 15:44  

Se não gostarmos de nós...quem gostará?!Aprendi, desde que pratico meditação, que só poderemos gostar dos outros...quando gostarmos de nós. É engraçado o que se aprende com a meditação. Todos os dias faço yoga e medito. Liberto-me do stress diário, porque dou comigo a "voar por aí"!Que sensação maravilhosa ser "pássaro", isto é, libertar-me do meu corpo e limpar-me de energias negativas. Quase sempre encontro o meu Guia que me "voa" ao meu lado.Falamos muito, acreditem. E, quando regresso ao meu corpo, sinto-me renovada e com mais força para enfrentar o dia-a-dia.É o meu SPA Mental. E, assim,e graças a Deus,que há 10 anos estou livre de "drogas".Hoje, estou bem comigo e com o mundo. Obrigada, minha Amiga pelo bem que me fez e tem feito. A Emília foi a minha 1ª Âncora. Beijinhos da Liliana.

São 23 de fevereiro de 2009 às 08:28  

Lindo excerto... tenho de descobrir este livro!

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